Opinião

Leia a crônica Caçapava do sul, agosto de 2017, de Remaldo Cassol

Embora sendo agosto um mês de frio violento, este de 1961 não fazia temperatura mínima insuportável

Por farrapo.rs
10/08/2017 11:37
 

Remaldo Carlos Cassol Escritor

O escritor Remaldo Carlos Cassol, 75 anos, se interessou por literatura por influências do pai. Estudou em Porto Alegre, onde se formou na Pontifícia Universidade Católica. Em Caçapava do Sul foi patrono da Feira do Livro em 2010 e exerceu o cargo de presidente em diversas entidades como Ascai e Patronato. Também esteve à frente das Lojas Maçônicas Coronel Coriolano Castro – recuperação e perfeita fraternidade. No Espaço do Poeta, o escritor participará uma vez por mês com textos de diversos assuntos, entre eles, política.

Dez horas da manhã, hora do lanche. Trabalhava na Caixa Econômica Estadual, matriz situada na esquina da Dr. Flores com rua da Praia. Fui para fazer um pequeno descanso. Saboreei uma taça de café preto com um gostoso mil folhas, na lanchonete dos dois irmãos italianos que ficava um pouco acima do edifício da Caixa na rua Dr. Flores. 

Rádios naquele tempo eram poucos embora começasse a era do rádio portátil. Perto da máquina registradora tinha um Rádio Philips que ficava ligado diariamente. Chama à atenção a característica de notícia de plantão. Atenção! Atenção! Acaba de renunciar o presidente Jânio Quadros. Sem terminar meu lanche corri até o segundo andar, local da diretoria da casa de crédito e bati forte na porta do presidente da entidade Dr. Alter Cintra de Oliveira, nosso conterrâneo. Com sua costumeira calma perguntou. 

- Que houve? 

Respondi afoitamente.

- Jânio Quadros renunciou. 

Calma, foi sua primeira palavra. Isto é grave e precisa haver certeza, ainda mais que o governador Leonel Brizola está em nossa sala. Voltei a afirmar, ouvi sim neste momento.

Minutos depois estava cerrada as porta do estabelecimento. Correria total. Um dos diretores, Hélio Quedes, deu ordem para retirar todo seu dinheiro em depósito. Ele poderia precisar em caso de sustentar uma revolta ou greve geral. 

A primeira preocupação surgiu. O presidente João Goulart está na China e os militares não estão dispostos a recebê-lo como legítimo mandatário da nação, ferindo de cheio a nossa carta magna.

Os dias foram passando e maior era o desejo dos militares, assim como de grande parcela de políticos reacionários, de não dar a legitimidade ao vice-presidente eleito.

Surge uma liderança com coragem e desprendimento, o governador de nosso estado na época, Dr. Leonel Brizola. Com sua voz firme e convicta anuncia ao país um movimento de soberania e respeito a nossa constituição.

Logo o povo recebeu esta mensagem, começando a agrupar-se manifestando inteira solidariedade. O resto da nação mantinha-se calada. Poucos eram os governadores que apoiavam o grito de Legalidade. Assim mesmo o governo gaúcho, com fibra, continuava lutando com toda a força possível, esperando uma resposta do terceiro exército, comandado por general Machado Lopes.

A estas alturas já me encontrava junto de muitos e dentro do Palácio Piratini aguardando a manifestação do comando militar. Lembro que foi dado ordem, ou melhor, sugestão, para colocar óleo queimado nos paralelepípedos das ruas que davam acesso ao palácio, tentando dificultar a chegada dos tanques de guerra.

Chega o momento culminante, Brizola fala que poderíamos ser mortos, com a eminente invasão da sede do governo. Aquele era o momento de resistir ou renunciar nossas convicções. Ninguém arredou pé do local. Lembro-me das palavras de Josué Guimarães ao vereador Giudice, que estava armado na janela:

- Se tombares, serei o segundo.

Eu que estava logo atrás de Josué, pensei rapidamente:

- O terceiro, serei eu. 

Senti que o ímpeto de minha juventude era para valer e não só para aparecer. Felizmente nossos revólveres ficaram calados. Machado Lopes entra no palácio com voz calma disse:

- Governador, estamos trazendo solidariedade. Nossas tropas estão do lado da Legalidade.

Leonel vai ao porão onde estava a Rádio Guaíba, já requisitada, comunicando a notícia, cujo microfone era segurado por nosso conterrâneo, Naldo Freitas e meu colega de serviço, Marco A. Wansendoc.

Muitos acontecimentos aconteceram durante os dias que precederam a Legalidade. Fatos conhecidos por todos nós. Presenciei algumas peculiaridades. Batalhões de civis foram formados no local chamado de mata-borrão e embora com pouca orientação, surgia sempre um comandante. Fiz parte de um batalhão comandado pelo Sr. Stain. 

Grande concentração foi formada no então Mata-Borrão, local de alistamento de voluntários. Ameaças com o alarme do avanço para bombardear o palácio do submarino Minas Gerais, que vinha em direção a costa gaúcha. Foi mais uma ameaça para atormentar a população do que realmente desejavam as forças armadas.

Felizmente a calmaria voltou com grande manifestação em frente ao palácio e a catedral metropolitana. Grandes e acalorados discursos, surgindo líderes que durante os dias de angústia ficaram na espreita. Um fato pitoresco foi que no meio das manifestações caiu uma metralhadora que estava nas mãos de um brigadiano postado na torre da Matriz. Foi grande o alvoroço, jogando-se para correr o então arcebispo, Don Vicente Scherer, na certeza, pensando ser um ataque. Foi logo segurado pelo presidente da Assembleia Legislativa da época, Deputado Helio Carlomagno.

Alguns saques de aproveitadores foram feitos em lojas centrais, logo reprimidos pela segurança. No domingo anterior foi suspenso um Grenal. O caminho político continuo com acertos no Congresso Nacional modificando a forma de governo para parlamentarismo, assegurando a presidência com menos poderes ao Dr. João Goulart, sistema que durou pouco tempo.

Remaldo Carlos Cassol


Por farrapo.rs

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