COLUNAS - COMPORTAMENTO


A (não) expressão dos sentimentos
02/08/2022 00:00:00
Ontem minha filha de 7 anos caiu na patinação, sentiu dor e chorou. Me vi “numa saia justa”, em xeque e por segundos “embaralhada”. A primeira reação ao ver quem amamos chorando é, automaticamente, querer estancar o choro e aliviar a dor e, nisto, logo, dizemos: “Não precisa chorar!”, “deu passou!” ou ainda, “não foi nada!”
Aquele choro dela me desconfortou e depois me pus a pensar que foram vários os porquês. Primeiro, pela dor, não queria que ela tivesse se machucado. E depois, porque não queria que ela tumultuasse o ambiente. Fomos muito bem acolhidas por quem estava no entorno, mas queria logo cessar o choro alto em função dos outros. Saí do meu lugar, do lugar dela e fui para um lugar chamado “outro”. Porém quando isto acontece nunca vai haver o real e necessário acolhimento. O atalho é certo. Atalhamos o processo. Queremos logo pôr fim ao incômodo. Ou seja, não sabemos lidar com a dor e por isso, acabamos não permitindo que seja expressada. 
Lembro que em meio a minha confusão, falei a ela “chora, pode chorar minha filha, eu sei que doeu, mas chora baixinho”. Não restringi tanto, mas de qualquer forma a restringi porque me senti no direito de controlar o volume da expressão da sua emoção. Logo, a abracei, dei um beijo porque acredito muito no poder curativo de um beijo de mãe e disse, vai lá, volta, retorna à aula, está tudo sob controle. De longe fiquei a observando, pensando e refletindo sobre tudo isto. 
A grande questão é que como somos experts, mesmo sem querer, em desvalidar o sentimento das pessoas e até mesmo o nosso. Dizer à criança que não há motivo para chorar é, implicitamente, dizer que o sentimento dela é uma bobagem. Ela vai internalizando esta ideia maluca e absurda até que não se expressará mais, se fechará, terá vergonha ou também achará bobagem o que sente. Quando a emoção é nossa e não a encaramos, desvalidamo-nos, desrespeitamo-nos e, dia após dia, a “caixinha de sentimentos” transbordará sob forma de sintomas.
Somos ensinados e ensinamos a não encarar a dor de frente, como se senti-la, demonstrá-la e expressá-la fosse sinal de fracasso. Feio e inadequado. A nossa cultura não facilita que sintamos, tornando-nos pouco inteligentes emocionalmente. A primeira saída é fugir, negar, trancar e, numa competição de quem é mais forte. 
Porém, (e este é o grande segredo para mentes saudáveis e brilhantes) “forte” é quem se permite chorar, esbravejar, cair e levantar, que tolera a dor, pede ajuda e entende que vivê-la é necessário para o real processo de cura e superação. A cada dor permitida e sentida, após, o resultado será sempre ganho de resiliência e muitos outros. 
Cuidemos para não vestir armaduras de ferro e nem fazer que outras pessoas as usem. Com o tempo elas enferrujam e quando isto acontece formam barreiras, as quais causarão ainda mais aflição.
Ahhh... E sobre a Laís e eu, depois desta, numa outra ocasião juro que vou dizer: “Chora, minha filha, pode chorar, coloca para fora do jeito e do tamanho da tua dor!”
 
 
Dica de leitura: 
Livro – “O Cavaleiro Preso na Armadura” (Robert Fisher)

Luciele Monteiro Osório - Psicóloga

- Especialista em Transtornos da Infância e a da Adolescência na Clínica Interdisciplinar
- Especialista em Psicologia Jurídica - Ênfase(s) em Família (s)
- Especializanda em Neuropsicologia

Formada em 2008 pela Unifra, desde então atua nas áreas da Psicologia Clínica e Organizacional. Além disso é mãe da Laís, sua melhor experiência prática do desenvolvimento infantil, esposa, filha, irmã, tia, do lar... Enfim, assume multi papéis, o que é típico da mulher da atualidade.

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