CAÇAPAVA DO SUL
Do Pampa aos estúdios da Globo: a trajetória de Rodrigo Forgiarini no Profissão Repórter
05/09/2026 18:11:56

Jovem de Caçapava do Sul está entre os seis estudantes selecionados para participar de uma imersão de 20 dias ao lado de Caco Barcellos e grandes nomes do jornalismo brasileiro; vencedor será conhecido em setembro.


Há cerca de três meses, Rodrigo Forgiarini estava em casa quando recebeu uma mensagem da tia Iolanda contando sobre uma seleção para estudantes de jornalismo. A oportunidade era para participar de uma experiência no Profissão Repórter, programa que ele acompanha desde criança e que sempre esteve entre suas principais referências na televisão. 
Para um jovem que escolheu o jornalismo como profissão e que admira a trajetória de Caco Barcellos, a possibilidade de participar de um dos programas mais reconhecidos do telejornalismo brasileiro parecia uma oportunidade única. 
Rodrigo decidiu se preparar, inscreveu-se e começou a pensar em como poderia apresentar, em apenas dois minutos, uma manifestação cultural brasileira de uma maneira diferente.
A escolha acabou sendo uma das expressões mais tradicionais do Rio Grande do Sul: o churrasco. Naquele período, Porto Alegre sediaria o Dia do Churrasco, evento que reuniria assadores de diferentes países da América Latina, e Rodrigo enxergou ali a possibilidade de fugir do óbvio e apresentar uma tradição conhecida por todos sob uma nova perspectiva. 
Convidou um amigo para trabalhar como câmera e saiu em busca de personagens e histórias que pudessem mostrar outras faces da churrasqueira. Encontrou mulheres assumindo o protagonismo em um espaço historicamente associado aos homens, novos modos de preparo, carnes consideradas exóticas e diferentes maneiras de se relacionar com uma tradição tão presente na cultura gaúcha. O material foi enviado quase despretensiosamente, sem que ele imaginasse que aquela produção poderia levá-lo tão longe.
A seleção era nacional e reunia quase 700 estudantes de jornalismo, todos com previsão de formatura naquele ano. Em maio, Rodrigo recebeu a notícia de que estava entre os 20 pré-selecionados para uma entrevista online com Caco Barcellos. Entre os gaúchos selecionados estava também uma colega da UFRGS. 
Para Rodrigo, a etapa representava muito mais do que uma entrevista de seleção: era a oportunidade de conversar diretamente com um dos jornalistas que mais influenciaram sua maneira de enxergar a profissão. Ele já trazia uma trajetória construída no telejornalismo quando trabalhou na UFRGS TV, experiência que considera sua grande escola na área.

 

A entrevista que abriu as portas
Na tarde da entrevista, a ansiedade tomou conta. Rodrigo sabia que apenas seis estudantes seriam escolhidos para viver a experiência. O nervosismo, no entanto, diminuiu assim que a câmera foi ligada e ele viu o jornalista sorrindo do outro lado da tela. A conversa aconteceu de maneira tranquila e espontânea, e uma das coisas que mais o impressionou foi perceber como Caco, apesar de toda a sua trajetória e de ter entrevistado algumas das figuras mais importantes do mundo, conseguia conversar com um estudante de jornalismo de igual para igual, com abertura e simplicidade.
Uma semana depois, veio outra ligação. A RBS queria gravar com os gaúchos pré-selecionados e Rodrigo estava em Santa Maria, acompanhado da família, quando recebeu a confirmação que mudaria completamente os rumos daquela história. 
Em um vídeo, Caco Barcellos apareceu anunciando que Rodrigo havia sido escolhido e o convidando para participar da experiência. A emoção foi imediata, acompanhada naturalmente pelo nervosismo diante da dimensão do desafio. Estava prestes a entrar em uma das maiores emissoras de televisão do mundo, conviver com grandes nomes do jornalismo brasileiro e ser observado e avaliado durante um processo que poderia definir o próximo passo de sua carreira.
A família acompanhou tudo de perto e até hoje comemora a conquista. Durante visita em Caçavapa, ocorrida neste final de semana, eles se reuniram para assistir novamente ao episódio e reviver aquele momento. Para ele, retornar à cidade depois de viver aquela experiência também teve um significado especial, porque, apesar de ter passado dias em grandes redações e estúdios, era ali, junto da família e dos amigos, que estavam algumas das raízes mais importantes de sua trajetória.

 

De Caçapava do Sul para o mundo
A distância entre Caçapava do Sul e os grandes centros do jornalismo nunca foi vista por Rodrigo como uma limitação. Pelo contrário, ele acredita que sua origem ajudou a construir a maneira como enxerga o mundo e as histórias que deseja contar. 
Para ele, o lugar onde uma pessoa nasce não deve determinar o tamanho dos seus sonhos, e foi justamente essa mentalidade que o fez acreditar que poderia conquistar espaços que pareciam muito distantes de sua realidade.
“Acho que, independente do lugar que tu nasces, das oportunidades, se tu tens essa mentalidade de buscar e querer alcançar, tem que seguir, não pode ter medo”, afirma. Rodrigo faz questão de destacar o orgulho que sente de suas origens. Sempre que pode, retorna para visitar a família, fala sobre o município por onde passa e acredita que Caçapava possui um potencial enorme, especialmente no turismo.
O Geoparque Caçapava é uma das conquistas que ele mais gosta de mencionar. Por onde vai, faz questão de falar da cidade e indicá-la aos amigos, assumindo, com orgulho, o papel de uma espécie de embaixador do município. 
O carinho que tem recebido dos caçapavanos durante sua participação no programa também tem sido especial. Para o estudante, se sua trajetória puder servir de inspiração para outro jovem da cidade, mostrando que é possível sonhar com grandes oportunidades mesmo estando longe dos grandes centros, todo esse caminho já terá valido a pena.

 

“A Disney do jornalismo”
A equipe do programa manteve boa parte dos detalhes em segredo durante a preparação dos estudantes. Os participantes não sabiam exatamente quais provas fariam, por quais lugares passariam ou quais profissionais encontrariam ao longo dos dias. A cada nova descoberta, o encantamento aumentava, e entre os estudantes surgiu uma brincadeira que ajudava a traduzir a dimensão da experiência: “Estamos na Disney do jornalismo”.
Foram 20 dias de imersão, sendo 15 em São Paulo e cinco no Rio de Janeiro, divididos em cinco episódios e cinco provas realizadas em diferentes redações. O deslumbramento era inevitável, mas precisava dividir espaço com a responsabilidade de saber que tudo aquilo também era uma avaliação profissional. 
Rodrigo conta que sua principal preocupação durante todo o processo foi mostrar aquilo que sabia fazer e aproveitar cada oportunidade para aprender com os profissionais que estavam ao seu redor.
“Óbvio que a emoção e o deslumbramento tomavam conta, mas a gente tinha que equilibrar muito isso com o profissionalismo. Minha única preocupação era mostrar meu melhor, aquilo que eu sei fazer, porque é uma oportunidade ímpar. Quando que vou viver 20 dias imerso com grandes nomes do jornalismo e eles me assistindo e avaliando?”, conta. 
O cansaço físico e emocional também fez parte da experiência, mas, segundo ele, acabou funcionando como um elemento a mais para colocar os estudantes à prova e potencializar aquilo que cada um era capaz de fazer.

 

O primeiro grande desafio
A primeira prova foi considerada por Rodrigo a mais desafiadora justamente por fugir do formato tradicional de reportagem. A expectativa dos estudantes era chegar aos estúdios da GloboNews, encontrar Caco Barcellos e Natuza Nery e descobrir como seria trabalhar naquele ambiente. Quando chegou a hora do teste, porém, Rodrigo ainda precisou lidar com um ingrediente extra: foi o último entre os participantes a realizar a prova.
Enquanto via os colegas retornarem depois dos testes, a ansiedade aumentava. No entanto, durante a caminhada até o estúdio, começou a perceber a dimensão do lugar onde estava e, curiosamente, aquilo que poderia aumentar o nervosismo acabou produzindo o efeito contrário. Rodrigo se sentiu mais empolgado e confiante. Entrou no estúdio determinado a fazer o melhor que pudesse e, depois da avaliação, recebeu de Caco Barcellos uma das frases que mais marcaram sua participação. O comentário não foi exibido no programa, mas permanece na memória do estudante: “Rodrigo, em poucos minutos tu dominou o estúdio, fez a equipe trabalhar para ti”.
A avaliação de Natuza Nery também teve um significado especial. A jornalista falou sobre a responsabilidade de estar diante das câmeras e explicou que, diante de milhões de pessoas, é preciso blindar-se de tudo o que está ao redor e concentrar-se na missão de transmitir a informação da melhor maneira possível. Rodrigo guardou especialmente uma frase dita por ela, que acabou não indo ao ar.  “Rodrigo, a gente pode te soltar em alto-mar, sem colete salva-vidas, que você vai sobreviver”.
Para ele, ouvir aquilo de uma profissional que considera uma das grandes referências do jornalismo ao vivo foi emocionante. Natuza também destacou sua postura diante das câmeras e sua capacidade de conduzir a apresentação, oferecendo dicas práticas que Rodrigo pretende levar para a carreira.

 

Muito mais do que televisão
Ao longo dos dias de imersão, Rodrigo descobriu que a experiência seria muito maior do que aprender técnicas de televisão. O contato com Caco Barcellos e com os demais profissionais das redações trouxe reflexões sobre o próprio sentido de fazer jornalismo. 
Entre as características de Caco que mais o marcaram foi justamente está a humanidade e a simplicidade. Depois de conviver durante 20 dias com o jornalista, inclusive em momentos cotidianos como o café da manhã, Rodrigo passou a enxergá-lo não apenas como uma referência profissional, mas também como uma figura humana muito próxima.
Caco chegou ao Brasil depois de estar em lugares como Cuba e Irã, seguindo histórias e personagens, e encontrou seis jovens estudantes que estavam ali para aprender com ele. Para Rodrigo, essa capacidade de ouvir e de se abrir para as pessoas foi uma das grandes lições da experiência. “Ele é uma pessoa que tem muitas histórias, ele gosta de contar, mas também gosta de ouvir. Então procuro colocar em prática isso, escutar mais e falar menos, precisamos estar abertos para as pessoas que chegam até a gente”, explica.
A lição também mudou sua forma de pensar a entrevista. Rodrigo acredita que o jornalista não pode chegar diante de um personagem carregando uma resposta pronta ou esperando que ele confirme aquilo que o repórter já imaginava. 
É preciso ouvir de verdade, prestar atenção nos detalhes e permitir que a própria pessoa conduza parte da história. É nesse espaço entre o que o jornalista imagina encontrar e aquilo que o personagem realmente revela que, para ele, está a possibilidade de contar uma história verdadeira.

 

O jornalista que Rodrigo quer ser
Desde pequeno, Rodrigo acompanha o Profissão Repórter e sempre se identificou com a maneira como o programa se distancia do jornalismo tradicional para mergulhar nas histórias e nos personagens. 
A admiração por Caco Barcellos também passa pelo jornalismo investigativo e por trabalhos como o livro Rota 66, que marcou sua formação e ajudou a despertar o interesse por um jornalismo atento às questões sociais e às pessoas que muitas vezes permanecem fora dos holofotes.
Hoje, o estudante sabe que tipo de jornalista pretende construir. Quer contar histórias escondidas, dar visibilidade a pessoas que muitas vezes não são ouvidas e encontrar a humanidade existente por trás dos grandes acontecimentos. 
As enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul reforçaram essa percepção, especialmente pela maneira como o Profissão Repórter mostrou não apenas a dimensão da tragédia, mas as histórias particulares das pessoas afetadas, seus cotidianos e suas perdas.
Ser um jovem do interior também influencia esse olhar. Rodrigo acredita que viver longe dos grandes centros proporciona uma relação diferente com a comunidade e pode ajudar o jornalista a perceber situações que, para quem vive diariamente em uma grande cidade, acabam sendo banalizadas. 
Ele cita como exemplo a presença de pessoas em situação de rua: quando alguém passa todos os dias pelo mesmo lugar e vê a mesma realidade, existe o risco de deixar de enxergá-la. Para ele, o jornalista precisa justamente preservar a capacidade de olhar novamente, de se indignar e de perceber aquilo que se tornou invisível aos olhos de quem já se acostumou.

 

Da sala de aula para a rua
Depois da experiência nos estúdios, outro desafio trouxe os estudantes para mais perto da essência do jornalismo diário. No episódio que será exibido neste domingo, dia 6 de setembro, Rodrigo e os demais participantes deixam o ambiente controlado dos estúdios para acompanhar acontecimentos que acabaram de ocorrer. 
É a passagem do ar-condicionado para o calor das ruas, do silêncio relativo dos estúdios para o barulho dos carros e das buzinas, em uma experiência que exige rapidez, atenção e capacidade de adaptação.
A surpresa também estava no funcionamento das redações. Uma hora os estudantes estavam em um ambiente e, pouco depois, em outro, conhecendo diferentes equipes e observando de perto o quanto profissionais experientes se dedicam ao trabalho. 
Durante todo o processo, ele manteve a sensação de que estava exatamente onde sempre quis estar: construindo, na prática, o caminho para uma carreira no jornalismo. A cada prova, a cada redação e a cada profissional encontrado, a certeza de que havia escolhido a profissão certa parecia ficar ainda maior.
Rodrigo conta que uma das coisas que mais o impressionaram foi justamente o profissionalismo e a entrega das pessoas que trabalham por trás das reportagens que chegam diariamente ao público. Para ele, estar cercado por profissionais tão bons também elevou o potencial dos próprios estudantes.

 

O jornalismo como compromisso
A experiência aconteceu em um momento em que o jornalismo enfrenta questionamentos sobre sua credibilidade e sua importância. Para Rodrigo, isso torna ainda mais necessário reafirmar o papel da profissão e o compromisso com a informação correta. 
Durante a imersão, praticamente todos os jornalistas com quem conversou reforçaram a necessidade de buscar a verdade, não inventar informações e trabalhar sempre com aquilo que efetivamente se sabe, especialmente em situações de transmissão ao vivo.
Rodrigo entende que esse compromisso é justamente o que diferencia o jornalismo profissional e acredita que a profissão tem papel fundamental na democracia. “Vivemos um momento crucial de sobrevivência e mais do que nunca precisamos mostrar a importância da informação. O jornalismo é o pilar da democracia. Precisamos de um jornalismo livre, comprometido com a verdade”, afirma.
É também por isso que participar do projeto representa tanto para ele. Mais do que uma competição por uma vaga, a experiência permitiu conhecer por dentro uma profissão que escolheu por acreditar no poder das histórias e na importância de dar voz a quem muitas vezes não consegue ser ouvido.

 

Os sonhos também têm nome de família
Antes de chegar aos estúdios da Globo, Rodrigo percorreu outros caminhos. Em 2020, formou-se em Publicidade e Propaganda pela UFSM, mas percebeu que queria seguir pelo Jornalismo. Quando contou aos pais, Naureci Osório Forgiarini e Delson Forgiarini, sobre a decisão de iniciar uma nova formação, encontrou apoio para seguir aquilo que acreditava ser seu caminho.
Essa lembrança ocupa um lugar importante quando Rodrigo fala sobre sonhos. Para ele, é preciso ter coragem para buscar aquilo que se deseja, mas também é fundamental contar com pessoas que apoiem essas escolhas. É por isso que divide a conquista com os pais, com a irmã Bruna Forgiarini Aquino, com os amigos e com todos que fizeram parte de sua caminhada.
A trajetória até aqui, portanto, não começou nos estúdios da Globo. Começou muito antes, em Caçapava do Sul, na família, na escola, nas experiências profissionais e na decisão de não deixar que a distância dos grandes centros definisse o tamanho de suas possibilidades.

 

“Se eu pudesse conversar com o Rodrigo lá de trás”
Todos os quadros já foram gravados e agora Rodrigo acompanha a exibição dos episódios com a expectativa de quem sabe que está vivendo uma experiência que dificilmente esquecerá. O resultado final, porém, ainda está por vir. A decisão será ao vivo, no dia 27 de setembro, quando será conhecido o vencedor da seleção do Profissão Repórter Procura.
Se tivesse apenas 30 segundos para explicar a Caco Barcellos por que merece a vaga, Rodrigo não falaria apenas sobre sua capacidade profissional. Falaria sobre os 20 dias de convivência, sobre tudo o que aprendeu, sobre a conexão que sentiu com o jornalista e sobre o desejo de seguir um caminho baseado na escuta, na responsabilidade e na busca por histórias que ainda estão escondidas.
“Se ele quer alguém para seguir um legado no jornalismo responsável, que escuta as pessoas e busca as histórias que estão por aí perdidas, esperando para serem contadas, eu estou aqui. Pode contar comigo. Estou esperando para seguir este caminho e espero ganhar esta oportunidade na Globo e ser o vencedor deste programa”, afirma.
Rodrigo gosta de gente, de estar perto das pessoas e de ouvir suas histórias. Talvez seja justamente essa característica que melhor explique o caminho que o trouxe até aqui. Quando pensa no menino que começou a acompanhar o Profissão Repórter pela televisão, ele imagina o que diria àquele Rodrigo de anos atrás: “Segue firme, a gente está no Fantástico, conhecemos o Caco Barcellos”.
A frase carrega um pouco de brincadeira, mas também traduz a dimensão de uma trajetória que ainda está sendo escrita. Questionado sobre como seria uma chamada para o Profissão Repórter, caso o programa contasse a sua trajetória, o caçapavano descreve, “Do frio do Pampa Gaúcho ao clima tropical do Rio de Janeiro, acompanhe a jornada de um jovem estudante de Caçapava do Sul até os estúdios da Globo. Hoje, no Profissional Repórter.
A resposta acabou inspirando o título desta reportagem, que procura justamente contar essa caminhada: do frio do Pampa Gaúcho aos estúdios da Globo, acompanhando os passos de um jovem que saiu de Caçapava do Sul para viver um dos capítulos mais importantes de sua trajetória no jornalismo.
Rodrigo Forgiarini descobriu que os sonhos podem começar pequenos, mas não precisam permanecer assim. Agora, resta esperar pelo último capítulo. No dia 27 de setembro, ao vivo, o programa conhecerá seu vencedor. 
Até lá, um jovem de Caçapava do Sul segue fazendo aquilo que aprendeu a fazer desde que decidiu ser jornalista: olhando para as pessoas, ouvindo suas histórias e acreditando que, em algum lugar, existe sempre uma história esperando para ser contada.

 

 

 

Por Tisa de Oliveira

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