VARIEDADES
Após a caneta emagrecedora, vem o reganho de peso
26/01/2026 08:42:21

A conta pode chegar rápido para quem decide interromper o uso das canetas emagrecedoras: o peso volta. Quem confirmou essa realidade foi a apresentadora norte-americana Oprah Winfrey, 70 anos, que viu nove quilos retornarem pouco tempo após suspender as injeções de semaglutida, medicamento injetável utilizado no tratamento de diabetes tipo 2 e obesidade. O reganho não foi coincidência, mas uma consequência direta de parar o tratamento.
A apresentadora decidiu cortar a medicação propositalmente para verificar se conseguiria manter o emagrecimento sozinha. A resposta do organismo foi imediata: sem a substância química agindo no cérebro, o "ruído alimentar" (a obsessão por comida) e a fome voraz reapareceram, resultando no aumento rápido de peso. O caso de Oprah serve como alerta de que, ao tirar a "caneta" da rotina, a biologia do corpo trabalha para recuperar os quilos.

A recuperação dos quilos acontece porque as canetas emagrecedoras foram inicialmente desenvolvidas para uso contínuo no tratamento de diabetes tipo 2 e de obesidade. Seu uso off-label, isto é, com uma finalidade diferente daquela prescrita pela bula, geralmente vem associado a fins estéticos, que influenciam a pausa repentina do medicamento quando o resultado esperado é alcançado.

Um caso que repercutiu na imprensa nacional foi o da modelo e atriz Lisandra Silva. Diferente de Oprah, que interrompeu o uso das canetas emagrecedoras para testar como se sentiria, Lisandra parou porque sentiu que "ia morrer". Após usar Ozempic sob prescrição médica, ela sofreu uma hipoglicemia severa que a levou ao hospital em uma cadeira de rodas. "Senti que estava desfalecendo. Meu açúcar baixou tanto que eu apagava", relatou em entrevistas.
O susto fez com que ela abandonasse o tratamento químico imediatamente, trocando-o pelo que chamou de "Ozempic natural": dieta, treino e meditação. O caso de Lisandra ilustra uma realidade comum nos consultórios brasileiros: muitas mulheres buscam o tratamento exclusivamente para finalidades estéticas. Quando são obrigadas a interrompê-lo abruptamente, seja pelo custo financeiro ou pelo mal-estar físico, ficam vulneráveis ao efeito rebote, pois o corpo não apresenta um "plano B" metabólico.

A endocrinologista Alessandra Rasckvski explica que o efeito rebote após a suspensão das canetas emagrecedoras já é previsto: “Quando há a interrupção da medicação, ou depois de se perder muitos quilos, principalmente, o paciente volta a ter uma diminuição da queima calórica e uma mudança do controle de fome e saciedade, que vai levar a um ganho de peso posterior. Então, esse é um fator esperado”. Alessandra alerta que a pausa abrupta no uso do medicamento aumenta o risco de compulsão alimentar, pois o apetite é intensificado.

O reganho de peso é especialmente acentuado quando não existe uma fase de transição estruturada para a suspensão das canetas emagrecedoras, que planeje mudanças alimentares e comportamentais. O aumento na balança é expressivo: segundo estudo publicado no British Medical Journal, o peso pode ser recuperado até quatro vezes mais rápido do que pessoas que perderam peso somente com planejamento alimentar e exercício físico.

 

Eficácia e segurança em usos off-label ainda não têm comprovação científica

Em usos sem indicação clínica, a eficácia das canetas não pode ser garantida. Uma pesquisa desenvolvida pelo grupo de pesquisa em Alimentação, Corporalidades e Cultura e o Centro de Medicina do Estilo de Vida da Universidade de São Paulo (USP) aponta que há uma lacuna de evidências que comprovem a segurança, o impacto psicológico e os efeitos a longo prazo do uso das canetas emagrecedoras exclusivamente para fins estéticos.

A professora Fernanda Scagliusi, uma das líderes da pesquisa, esclarece que ainda não existem estudos que avaliem as implicações desses medicamentos no corpo a longo prazo. “Ninguém sabe o que vai acontecer depois de 30 anos de medicação”, declara.

Desde o início do tratamento com canetas emagrecedoras, efeitos colaterais são observados, como náuseas, tontura e perda de massa muscular. Problemas mais graves no funcionamento da vesícula e do pâncreas também podem surgir. Sem acompanhamento médico, os riscos são mais elevados.

A professora Fernanda ressalta que a pressão estética faz com que os sintomas sejam minimizados por quem utiliza a medicação. Para atingir o ideal do “corpo perfeito”, a procura pelas canetas emagrecedoras chega até aquelas que ainda não foram aprovadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Fernanda alega que este é um sinal de preocupação: “A pessoa está experimentando com a própria vida e isso pode ser muito perigoso”.

As canetas emagrecedoras não são a solução definitiva ou a mais segura para a insatisfação com o corpo. A neuropsicóloga Aline Graffiete defende que é no processo terapêutico que se aprende a ter uma relação saudável consigo e com a comida. “A medicação atua no controle do apetite e da saciedade, mas não ensina a pessoa a se relacionar com a comida. É na terapia que o indivíduo aprende a identificar gatilhos emocionais, reconhecer padrões de comer compulsivo e desenvolver estratégias mais saudáveis para lidar com as emoções”, afirma.

Dados divulgados pelo Conselho Federal de Farmácia mostram que, em 2025, os medicamentos injetáveis para emagrecimento, chamados popularmente de canetas emagrecedoras, tiveram um crescimento de 88% em importações para o Brasil. Ao todo, US$ 1,669 bilhão foi investido, o que equivale à cerca de R$ 9 bilhões.

Os números apresentados consideram apenas as importações para aquisições feitas com retenção da segunda via da receita médica nas farmácias, conforme exigência da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Mesmo com prescrição médica, nem todos que utilizam as canetas emagrecedoras têm indicação clínica para isso, ou seja, não possuem condições associadas às doenças para as quais esses medicamentos são direcionados.

 

Agonistas GLP-1 e o tratamento da obesidade

As canetas emagrecedoras são medicamentos da categoria agonistas GLP-1, voltada ao tratamento de diabetes tipo 2 e de obesidade. Eles intensificam o trabalho do hormônio GLP-1, naturalmente produzido pelo intestino após a ingestão de alimentos. Esse hormônio regula os níveis de glicose e promove sensação de saciedade. A importância dos agonistas GLP-1 foi evidenciada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) que, em 2025, incluiu o grupo em sua lista de medicamentos essenciais e publicou uma diretriz global sobre seu uso no tratamento da obesidade.

A obesidade é uma doença crônica que, segundo a OMS, atinge uma a cada oito pessoas. Em 2025, o Observatório Global da Obesidade divulgou o World Obesity Atlas, uma análise da doença ao redor do mundo. O documento indica que 31% da população adulta brasileira vive com obesidade, e que 68% apresentam excesso de peso. De acordo com o atlas, se a tendência atual continuar, a estimativa é que a obesidade e o sobrepeso afetem cerca de 50% da população mundial adulta até 2030, o que representa quase 3 bilhões de pessoas.

 

 

 

 

Por Ellen de Lima

Correio do Povo

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