Opinião

A verdadeira droga deste século - confira a crônica de Cristiano Alves

13/12/2019 16:07
 

Foto: Reprodução

Lauro Inácio mal chegava todos os dias à loja e rapidamente encontrava um jeito de falar mal da internet. Era só alguém dizer que viu tal notícia pela rede e Lauro Inácio rangia os dentes, enraivecido. “Essa internet é a verdadeira droga deste século”, diagnosticava, contundente. “Ela vai acabar com a humanidade”, profetizava.

“Jamais vou aderir a redes sociais, lugar só de fofocas e onde até aquele deputadozinho vencedor do reality show vira macho. Qualquer um ofende, e fica por isso mesmo. Eu queria ver dizerem dez por cento do que dizem cara a cara, olho no olho. Lá só tem mulher mal amada e fria, e homem corno e broxa. Humildade lá é impossível, ainda que o camarada tenha que se disfarçar de arrogante.”

Mas o que mais Lauro Inácio gostava era de falar dos perfis dos indivíduos nas redes sociais. “É lá onde estão os verdadeiros personagens, e não nos livros de literatura. Todo mundo é feliz; ninguém tem problemas; as pessoas não têm dificuldades amorosas, familiares, financeiras. É um “mar de rosas”. Para o marido são só elogios, quando na realidade vivem brigando que nem gato e cachorro. Êta falsidade, hipocrisia, egoísmo. São só aparências e mentiras. Para inglês ver.”

Aumentavam tanto os impropérios a cada dia, a cada semana, que nós já procurávamos medir as palavras perto do colega. Eu era dos que torcia para que a loja não ficasse vazia por mais do que alguns minutos, senão Lauro Inácio se aproveitava da situação para panfletar radicalmente contra “essas certas tecnologias”.

Um prato cheio para ele era ficar sabendo que amigos desfaziam amizades por razões fúteis, via internet; ou que um casal se divorciou porque um descobriu que o outro navegava em sites de relacionamentos. Certo dia um cliente assíduo nos comunicou, olhando não nossos olhos, mas sim a tela do seu smartphone, que o Grêmio acabara de contratar um meia-atacante equatoriano que atuava no América do México. Todos nós, gremistas ou colorados, achamos uma bela contratação.

No outro dia, bem cedinho, cumprimentei meu colega de trabalho; entretanto dele não recebi cumprimento. Vociferava, nada econômico de palavrões, contra o cliente do dia anterior. A notícia da contratação era falsa. Só semanas depois é que o atleta, de fato, veio jogar em Porto Alegre. “Eis mais uma prova, de tantas, do que eu falo! Eu só confio nos grandes meios de comunicação. Só vou atrás do que é veiculado pela tevê e principalmente pelas tradicionais rádios, que têm a credibilidade como marca de seu jornalismo.” E concluía com costumeiras gargalhadas, as quais corroboravam seu contentamento diante de mais uma “vitória” pessoal.

Até que uma manhã de frio intenso, porém de lindo céu azul, Lauro Inácio bocejava de tanto sono. “O que foi, Lauro Inácio?” Ele, então, nos deixa estupefatos com a novidade. Ganhou um celular ultramoderno da mulher e passou metade da noite enviando convites para todos os amigos, via rede social.

Cristiano Porto Alves
Graduado em Letras Português-Espanhol pela FURG
Professor da escola Gladi Machado Garcia (em Minas do Camaquã)

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