Opinião

Férias de infância no rincão

15/07/2020 16:22
 

 

Algumas das melhores recordações de minha infância me remetem costumeiramente às férias na chácara do tio Mertílio. Não era propriamente meu tio, e sim um parente de meu pai. Entretanto, a relação que ele tinha com meu pai era bastante forte. “O Mertilinho é mais que meu irmão”, ratificava meu progenitor. Considerava-me meu padrinho. Aliás um de seus discursos mais famosos, quando eu estava junto, era sempre lembrar que ele deveria ter sido meu padrinho. Só não fora porque, segundo ele, à última hora, sob intervenção de minha avó, decidiram mudar.

 Sendo um menino criado em meios urbanos, os dias no rincão me eram enormemente distintos. Meus pais e eu tomávamos um ônibus que fazia linhas municipais até o Cemitério da Barbosa, no Pinheiro. Um trajeto alternativo era pela BR-153 até o Cerro da Angélica, na localidade do Irapuá. Depois, mais de uma hora a pé, pela estrada, até o Rincão da Fé. Uma porteira anunciava o início das propriedades do tio Mertílio. Mais alguns minutos de descida até a residência dos parentes.

A casa era simples, toda de chão batido. Fogão de chapa; colchões de palha; portas e janelas com taramela. Não havia luz elétrica. Um lampião iluminava o início das noites, perpassando a hora da janta, até o momento de todos se recolherem. Um grande rádio, antigo, era o único entretenimento das noites mertilianas. As duas principais emissoras de ondas médias da capital eram as suas prediletas. As informações do futebol e os correspondentes, os seus programas. Bastava uma notícia, e começavam suas longas dissertações sempre ferozmente críticas acerca dos maus políticos e dos jogadores mercenários.

A mesa sempre farta. Disso tio Mertílio não abria mão. Sempre muito gentil, insistia para que todos se servissem novamente. Era quase uma desfeita não aceitar. Os doces... Ah, que saborosos! Todos caseiros. Um melhor que o outro. Marmeladas, goiabadas, figadas, doces de figo e de pêssego... mas a minha sobremesa favorita era a ambrosia de tia Adonilda. Ainda hoje, quando me deparo com essa iguaria, a lembrança da minha querida tia. Deixei a infância, a adolescência; já era adulto fazia tempo e o presente de tia Adonilda era invariavelmente um vidro de doce de leite.

Não havia água encanada. Muito menos vaso sanitário ou chuveiro. As necessidades fisiológicas eram feitas no mato; e à noite, próximo à casa, graças à escuridão. Banhos apenas na sanga ou no açude, bem distantes da morada. Todo dia, duas ou três vezes, tínhamos de ir até a fonte, a qual ficava ainda mais distante que o açude, a fim de buscar água para cozinhar e lavar a louça. Uma talha artesanal era a garantia de água gelada no verão. Nunca imaginei que pudéssemos ter água gelada fora da geladeira por muito tempo.

Tio Mertílio gostava muito de mim. Construiu uma balança só para mim, ao costado da casa, junto de um guabijuzeiro, que dava sombras maravilhosas nas tardes de janeiro. A sesta que eu mais apreciava era com um pelego grande ao chão, debaixo das árvores, e com o radinho de pilha de minha mãe, meu companheiro também para a hora de dormir.

Jamais percebi a presença de mosquitos à noite. Sons apenas da natureza. Galos cantando de madrugada. Antes das cinco da manhã, ainda deitado, tio Mertílio ligava o seu grande rádio. Demorava para sintonizar a “rádio da ave-maria”. Além da oração, as primeiras notícias do novo dia, antes mesmo de raiar o sol.

O café da manhã tardava porque ele gostava de tomar chimarrão; muito chimarrão. No mínimo uma hora sorvendo o mate amargo e quente, que passava de mão em mão. Os pães caseiros de tia Adonilda eram o melhor do desjejum, acompanhados de uma xícara de café forte e bem quente. A figada para passar no pão não podia faltar de jeito nenhum.

Depois do café íamos dar comida aos bichos. Galinhas, porcos, marrecos, gatos, cachorros. Biguá e Paraná eram meus grandes amigos; acompanhavam-me quase sempre. O segundo era deveras dócil como nunca vi. Eu pedia para que ele me desse a patinha, e ele obedecia ofegante. Era bastante eficiente no trato com o gado. Poucas vezes fiquei tão macambúzio como no dia em que recebi a notícia da morte de Paraná.

Assim como Romualdo, de Simões Lopes Neto, o irmão “de coração e de alma” de meu pai também era um contador de histórias por excelência. Loquaz e gabola, suas aventuras não tinham veracidade, no entanto tinham o poder da invenção e apelavam de forma contínua para o inverossímil.

Custei a perceber, mas hoje sei que uma das razões de seu carinho por mim era porque eu a toda hora estava pronto para escutar suas extensas narrativas. Sempre me fazia de surpreso e interessado em mais detalhes. Meu interesse era a mola propulsora de mais episódios inventados.

Como eu também gostava de futebol, ele criou uma das mais absurdas de suas estórias. Sempre preocupado em dar nomes, sobrenomes, apelidos e parentescos de seus personagens, de modo a tentar transmitir verdade aos fatos. Certa feita ele foi assistir a um jogo de bola entre amigos. Ele não tinha o hábito de jogar, mas o pessoal do time que perdia por quatro a zero suplicou que ele entrasse no lugar de um que se machucara. Mesmo relutando, decidiu colaborar. Entrou em campo faltando vinte ou vinte e cinco minutos, deu o passe para os dois primeiros “golos” e marcou os três últimos da virada, sendo aplaudido por todos ao fim do confronto.

 

 

                                                                                                                                                           Cristiano Porto Alves

 

Graduado em Letras Português-Espanhol, pela FURG

Pós-Graduando em Metodologias de Ensino da Língua Portuguesa e Literatura, pela UNOPAR

Professor da Escola Gladi Machado Garcia (em Minas do Camaquã)

 

 



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