
As manhãs ficam mais frias, o café parece mais saboroso e a vontade de permanecer debaixo das cobertas ganha da disposição para caminhar. O inverno chega silenciosamente e, com ele, mudam alguns hábitos. Sem perceber, bebemos menos água, nos movimentamos menos e buscamos refeições mais quentes e mais calóricas. O corpo sente essas mudanças. E o coração também.
Muita gente associa o inverno apenas às gripes e resfriados. Mas existe um outro aspecto, menos lembrado e igualmente importante: durante os meses mais frios, aumenta a ocorrência de infartos e acidentes vasculares cerebrais. Em alguns estudos, esse aumento pode chegar a 20% a 30%, especialmente entre pessoas que já convivem com hipertensão, diabetes, colesterol elevado, obesidade ou histórico familiar de doenças cardiovasculares.
Isso acontece porque o nosso organismo precisa se adaptar ao frio. As artérias apresentam maior dificuldade para relaxar, favorecendo a elevação da pressão arterial e exigindo mais do coração. Ao mesmo tempo, o sangue tende a se tornar mais viscoso e as plaquetas mais propensas a se agregarem, aumentando a possibilidade de formação de coágulos.
Há ainda um detalhe que costuma passar despercebido. No inverno, a sede parece entrar em férias. Como suamos menos e sentimos menos calor, muitas vezes passamos horas sem beber água. A desidratação, mesmo que leve, contribui para tornar o sangue mais concentrado, favorecendo esse aumento da viscosidade e da agregação plaquetária, fatores que, somados às alterações provocadas pelo frio, podem aumentar o risco cardiovascular.
Também é comum deixarmos a caminhada para amanhã, trocarmos a fruta por um doce mais elaborado e passarmos mais tempo em ambientes fechados. Faz parte da estação. Não se trata de culpa, mas de atenção. O inverno nos convida ao recolhimento, mas o coração continua precisando dos mesmos cuidados de sempre.
Por isso, vale um lembrete simples: beber água, mesmo sem sede. Manter-se em movimento, ainda que seja dentro de casa. Dar preferência aos alimentos mais naturais, coloridos e ricos em compostos bioativos. E, para quem já faz tratamento para pressão alta, diabetes ou colesterol elevado, não abandonar os cuidados justamente na época em que eles se tornam ainda mais importantes.
Talvez a chegada do inverno seja também um convite para desacelerar, preparar uma sopa quente, reunir a família e cuidar mais de si. Porque, enquanto vestimos mais uma camada de roupa para nos proteger do frio, o coração também precisa desse cuidado.
Maria de Fátima Greco Ferreira
Nutricionista – CRN-2 12962P
Pós-graduanda em Nutrição em Cardiologia pela VP
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