Opinião

Leia o artigo do professor Edison Krusser - A docência infectada

17/04/2020 16:50
 

Foto: Divulgação

Trago uma discussão para assuntos que mesmo que possam ser pautados em fóruns distintos, aqui eles confluem, experimentam uma coexistência de interesses no tempo e nas oportunidades. Falo da necessidade de um olhar para a educação em tempos de pandemia, atravessada pela experimentação da Ensinagem em Regime Remoto e suas relações com a docência presencial.

Anuncio certo olhar para o aparente avanço midiático e oportunista, que vai de encontro a essa docência. Isso emana, também, de (des)organizações capitalistas que buscam infiltrar-se na educação básica, como um terreno fértil para expandir seus virulentos domínios econômicos. Num ensaio de impor pseudoinovações, que acaba emprestando certo obsoletismo à importância do professor, como protagonista na linha de frente, junto às escolas.

É possível afirmar que a educação tem sido desenvolvida em escolas (onde a maioria) experimenta a precariedade em suas infraestruturas, mas são as melhores possíveis em relação a si mesmas, capturadas por um poder atravessado por uma racionalidade que emerge do pedagógico, instrumentalizado pela presença do professor que exercita a escuta, o diálogo e que olha no olho do aluno. Uma escola que reconhece a necessidade de estabelecer novas relações, acompanhar novas demandas, mas que não abre mão da integridade e manutenção de seus princípios.

Apresento esta narrativa, não pelo fato ou suposição daquela docência ser arcaica, ultrapassada ou fora de moda (Jorge Larrosa provoca dizendo que todo docente é velho, do ponto de vista da anterioridade do que ele traz na docência). Não é esse o ponto que noticio, mas da emergência de outras possibilidades que pelas suas características mutantes requerem certo cheiro de inovação e desafio, de acordo com as condições mínimas aceitáveis, para existirmos em ambientes cada vez mais insólitos e imprevisíveis culturalmente.

Sim, é a cultura, conforme o pensamento de Stuart Hall, que nos incita a pensar acerca das contradições e disputas de poder em um ambiente globalizado, desenfronteirado, que cada vez mais se manifestam em nosso dia a dia. Isso faz com que integremos uma massa disforme de vontades e atitudes indicadas à sobrevida em um terreno cada vez mais pueril, disforme e enredado em conexões.

Até nossa vanguardista interdisciplinaridade agora se faz constrangida, sem saber ao certo o que fazer, nem com quem ter uma conversa confiável. Por que não discutimos isso antes? Porque o visitante que dizemos que pode ser que nos mate, está querendo nada mais do que sua própria sobrevida. Ele não nos deu tempo de tirarmos o tapete de bem-vindo das portas de nossos territórios. Nem conseguimos dizer que não havia vagas para hospedar tal estranho. Nem que não o reconheceríamos a olho nu, nesse assolamento predatório de todas as grandezas e matizes.

Uma das estratégias de defesa talvez seja direcionar nossos olhares de confiança para novos agires com ênfase científica. Agora é possível afirmar que apenas não havia sido dado o sinal para o início dessa aula, mas sabíamos que isso seria tratado em algum momento. E sabes por quem? Por um docente, que agora se faz infectado e precisa absorver as reações que se darão no seu concreto e no seu abstrato.

Ele precisará experienciar tais dores para autorizar-se a falar delas para seus pupilos desde seu olhar cuidador? Agirá, sabendo que tal contato se tornará condição para sua existência. Assim, o docente parece precisar de uma genética mutante que se adapte às intempéries que lhe assolam e às normalidades que jamais são replicadas.

A questão agora é qual o nível do amargor do remédio para tal enfrentamento. Será esse docente também o responsável pela solução através de sua missão pesquisadora?

O que talvez seja preciso pensar antes é sobre a iminente ameaça à docência presencial, visto sua imprescindibilidade dentro da sala de aula, frente aos seus alunos, numa atividade que se faz coletiva e simultânea, acompanhados das verticalidades ornadas de suas paredes e quadros e das horizontalidades de suas classes, livros e cadernos de anotações, numa conversa com outras angulações.

Tangenciando a utopia das telas para todos, como meio didático, não como fim educacional. Portanto, não é da negação da importância da tecnologia informativa por meios eletrônicos que este texto trata. Talvez sim, do distanciamento conceitual entre informação e conhecimento.

Do fato de os alunos terem que estudar em casa, isolados da escola com seus muros protetores e da vida interativa em uma sociedade mais ampla que a familiar, onde experimentam seus letramentos sociais, já é possível anunciar que a docência tem um valor que ainda não tinha sido medido. Embora não seja novidade no meio educacional, emergiu uma práxis conteudista nessa relação escola/professor com o lar/pais, que merece ser mais bem pensada, discutida e avaliada.

A pandemia e seus efeitos não estavam na Base Nacional Comum Curricular, portanto é o momento também de as universidades e os órgãos políticos/públicos em geral assumirem certo e imediato protagonismo no sentido de pensar a educação e seus desdobramentos científicos/curriculares para outros devires. E que isso seja discutido e compartilhado com quem habita o chão de escola. Conforme Mia Couto, precisamos reparar mais no nosso entorno, pois ele nos educa para a descentralização de nós mesmos. Assim teremos a nossa atenção mais voltada ao que o outro quer nos dizer.

Como os heróis na linha de frente da saúde, os professores também estão instrumentalizados e prontos para o enfrentamento. Para cada agressão à docência, uma reação racional.

Eis que surge a luz da escola acolhedora, com seu docente esperançoso, de braços abertos, resistindo todos os dias, com saudades dos filhos emprestados. Uma escola romantizada sim! Que precisa, em todos os tempos e adversidades, ser festejada barulhentamente em suas salas, corredores e pátios.

Abraços e até breve!

Prof. Edison Krusser
*Mestre e Doutorando em Educação pela Universidade de Santa Cruz do Sul – UNISC.
E-mail: earank@farrapo.com.br

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