
Se eu perguntar qual é o maior vilão da pressão alta, imagino que a maioria das pessoas responderá sem pensar: o sal.
E, por muitos anos, nós também pensamos assim.
O saleiro ganhou fama. Foi afastado da mesa, virou alvo das consultas médicas e passou a carregar quase sozinho a culpa pela hipertensão.
Enquanto isso, outros personagens dessa história permaneceram discretos.
O curioso é que, muitas vezes, o saleiro já nem é o maior problema. O excesso de sódio costuma chegar de maneira muito mais silenciosa, escondido nos alimentos ultraprocessados, nos embutidos, nos temperos prontos, nos molhos industrializados, nos salgadinhos e em alguns produtos que sequer têm sabor salgado.
Talvez seja por isso que apenas retirar o saleiro da mesa nem sempre seja suficiente.
A ciência foi ampliando esse olhar e mostrando que controlar a pressão arterial depende muito mais da qualidade da alimentação do que da exclusão de um único ingrediente.
Foi assim que comecei a prestar atenção em nutrientes que raramente aparecem nas manchetes, mas trabalham todos os dias, de forma silenciosa, protegendo o nosso coração.
O potássio é um deles.
Enquanto o sódio favorece a retenção de líquidos, o potássio ajuda o organismo a eliminar seu excesso pelos rins e também contribui para o relaxamento dos vasos sanguíneos. É como se ajudasse a equilibrar uma balança que, na alimentação moderna, costuma pender para um único lado.
E antes que alguém pense apenas na banana, vale lembrar que ele também está presente no feijão, na lentilha, nas folhas verde-escuras, na abóbora, nas frutas, nas verduras e em tantos alimentos que sempre fizeram parte da nossa culinária.
Outro parceiro importante é o magnésio.
Ele participa de centenas de reações no organismo, auxilia no relaxamento dos vasos sanguíneos, favorece a produção de óxido nítrico, essencial para a circulação, e contribui para reduzir processos inflamatórios.
O cálcio também merece um espaço nessa conversa.
Muito além da saúde dos ossos, ele participa da contração muscular, da comunicação entre as células e do delicado mecanismo que ajuda a manter a pressão arterial em equilíbrio.
Mas talvez uma das descobertas mais fascinantes dos últimos anos esteja nos compostos bioativos.
Flavonoides, antocianinas e lignanas são nomes pouco conhecidos fora do meio científico, mas bastante familiares para quem observa um prato colorido. Estão presentes nas frutas, verduras, legumes, sementes e cereais integrais, ajudando a reduzir o estresse oxidativo, modular a inflamação e preservar a saúde das artérias.
As lignanas, encontradas principalmente na linhaça e no gergelim, merecem um destaque especial. Depois de consumidas, elas são transformadas pela microbiota intestinal em compostos biologicamente ativos que têm sido associados à melhora da função vascular e à proteção cardiovascular.
Mais uma vez, a ciência nos lembra que o coração não trabalha sozinho.
Ele conversa o tempo todo com os rins, com os vasos sanguíneos e, cada vez mais sabemos, também com o intestino.
Talvez seja justamente essa conversa que explique por que padrões alimentares como a dieta Mediterrânea e a dieta DASH apresentam resultados tão consistentes no controle da hipertensão. O benefício não está em um alimento isolado. Está na combinação de fibras, minerais, gorduras saudáveis e compostos bioativos, atuando em sintonia todos os dias.
No consultório, é comum encontrar pessoas que retiraram o saleiro da mesa, mas ainda consomem poucas frutas, verduras, legumes, feijões e sementes. O problema, muitas vezes, não é apenas o excesso de sódio. É também a ausência de alimentos que naturalmente ajudam a proteger o sistema cardiovascular.
No fim das contas, talvez a pergunta mais importante não seja quanto sal existe no prato.
Talvez seja outra.
Quanto alimento de verdade existe nele?
A hipertensão começa a ser tratada quando o paciente entende que a saúde cardiovascular não depende apenas do que ele retira do prato, mas, principalmente, daquilo que decide colocar nele.
Maria de Fátima Greco Ferreira
Nutricionista – CRN-2 12962P
Pós-graduanda em Nutrição em Cardiologia – VP
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